Cúpula Africana 2006
4/8/2006
Fonte: Fórum Econômico Mundial
Perguntas da Entrevista sobre Parcerias
Estratégicas do Fórum Econômico Mundial na África
Gustavo Arenas, vice-presidente corporativo da
AMD para mercados de alto-crescimento
O governo não é a resposta para todos os
problemas, mas, quando se trata de acesso à tecnologia, ele é simplesmente o
fator mais importante em qualquer lugar do mundo. Gustavo Arenas, da AMD,
sentou-se com líderes do Fórum Econômico Mundial na reunião da Cúpula
Sul-Africana da organização em uma tarde de maio para compartilhar suas idéias
sobre o importante papel que os governos do mundo todo devem desempenhar para
colocar a tecnologia nas mãos de seus cidadãos nos mercados de alto-crescimento
e discutir sobre como a concorrência e a inovação são catalisadores cruciais
para o sucesso.
1) A expansão de infra-estruturas em TI e a
redução dos custos com redes poderiam ajudar a eficiência dos negócios
africanos e fortalecer os governos. Como os governos podem incentivar os
investimentos comerciais para expandir a infra-estrutura de TI na África?
As empresas de tecnologia da informação, como
a AMD e nossos parceiros e clientes, vêem cada vez mais a África como um lugar
com o qual desejamos realizar negócios. Assim, metade da batalha já está ganha.
Queremos estar aqui e os líderes africanos nos querem aqui. A próxima etapa é
que os governos do continente trabalhem com organizações dos setores público e
privado para promover políticas destinadas a fomentar um ambiente saudável aos
negócios, no qual prevaleça uma concorrência leal e aberta. Felizmente, estamos
vendo esse tipo de pensamento florescer por aqui. Ele se manifesta em
iniciativas como a NEPAD (New Economic Program for Africa's Development), na
qual vários governos africanos, organizações sem fins lucrativos, o setor
privado de TI e vários outros organismos e organizações mundiais se reuniram
para desenvolver programas e iniciativas que buscam resolver um conjunto de
problemas socioeconômicos, capacitando as pessoas a assumir o controle de suas
próprias vidas. Isso é sustentável e é maravilhoso de se ver.
Também deveríamos examinar coletivamente os programas
de ajuda e buscar maneiras de redirecionar alguns desses recursos para o
cultivo de condições certas para o sucesso no longo prazo. Isso inclui o
desenvolvimento dos aspectos mais competitivos do conjunto inteiro dos setores
de negócios, e não apenas da TI. Também deveria incluir um compromisso com
investimentos em P&D, bem como investimentos em educação e treinamento
(inclusive educação na área de saúde), industrialização, desenvolvimento dos
recursos naturais e outros fatores fundamentais para a prosperidade futura. A
ajuda percorre um longo caminho para a solução de uma série de problemas, mas
muitos deles são compreensivelmente orientados para o trabalho dos programas de
alívio emergencial. É difícil pensar além disso, mas é essencial abrirmos espaço
para que a ajuda também abra oportunidades de crescimento no longo prazo.
Por fim, a concorrência é fundamental. A AMD
continua a ser uma defensora da concorrência leal e aberta em qualquer lugar do
mundo. Isso também permeia nossa Iniciativa 50x15, que procura conectar à
Internet 50% da população mundial até 2015. A única maneira pela qual poderemos
alcançar essa meta é trabalhar com parceiros globais dos setores público e
privado da sociedade para desenvolver idéias e tecnologias inovadoras. Se a história
nos ensina alguma coisa, só pode ser que as verdadeiras inovações nasceram da
concorrência. A introdução da montagem de uma linha de produção por Ford é
talvez o exemplo mais amplamente reconhecido, o que não significa que seja o
único. O anúncio conjunto da AMD e da Microsoft, em 22 de maio, é um exemplo
igualmente forte. Juntas, a AMD e a Microsoft estão desenvolvendo novas
tecnologias projetadas para permitir que as pessoas dos mercados de
alto-crescimento em todo o mundo possuam um PC com todos os recursos, no modelo
comercial "pré-pago", da mesma maneira como a maioria das pessoas usa
telefones celulares. Essa é, em última instância, a situação do ganho mútuo,
que dará à população dos mercados emergentes a capacidade de obter um PC completamente
equipado, que consome pouco e dentro do seu orçamento.
2) Como a Internet e as novas tecnologias
podem ajudar as empresas e os governos a melhorar suas gestões?
Em grande parte, da mesma maneira como a TI e
a Internet têm ajudado o setor privado a se tornar mais eficiente. O Brasil é
um grande exemplo de como aproveitar novas tecnologias para aprimorar a
eficiência em suas operações e nos serviços que presta aos cidadãos. O
Presidente Lula fez do acesso dos brasileiros à TI uma das metas fundamentais
de sua administração. Como resultado, o Governo brasileiro está se tornando
mais eficiente na medida em que aproveita a tecnologia da TI para apoiar suas
operações e o respectivo gerenciamento. Também não é por acaso que a economia
do Brasil vem crescendo a um ritmo forte enquanto o acesso à TI se expande. A
tecnologia pode desencadear o potencial econômico de forma vigorosa e, algumas
vezes, surpreendente. Hoje, os cidadãos brasileiros podem interagir com seus
governos locais e nacional visitando numerosos sites governamentais na
Internet. No Brasil, eles podem usar computadores para realizar on-line quase
todas as transações relacionadas com o governo – da solicitação de renovação da
carteira de motorista ao pedido de empréstimos públicos ou para participar de diversos
programas do governo. Também podem procurar empregos, avaliar e obter
benefícios em assistência médica e realizar outros negócios com empresas
privadas e públicas de modo rápido e eficiente pela Internet. O que lhes tomava
um dia inteiro, ou mais, agora leva apenas uma fração desse tempo. Isso é só o
começo. Os governos da África que desejam aprender como alavancar a tecnologia
de TI para conduzir o crescimento de sua eficiência e economia devem estudar o
caso do Brasil e de outros países, como a Coréia. Existem muitas lições
valiosas nesses exemplos.
3) Que obstáculos impedem o avanço no uso
dessas tecnologias?
Carência na educação e no treinamento, falta
de infra-estrutura e de comprometimento por parte dos governos para tornar o
acesso à TI uma meta nacional. Se forem devidamente treinadas e educadas, as
pessoas se interessarão mais em aprender como utilizar a tecnologia para
melhorar suas vidas e suas condições econômicas. Elas também serão muito menos
intimidadas pelo pensamento de terem que usar um computador. Isso foi algo que
a AMD aprendeu de primeira mão em um programa-piloto que ajudamos a conduzir
para o Fórum Econômico Mundial no Brasil. O programa enfocou o fornecimento de
computadores e de acesso à Internet para pessoas em busca de emprego em uma
região carente de São Paulo. Inicialmente, muitas pessoas que aceitamos no
programa-piloto estavam nervosas e intimidadas pelo uso da tecnologia. Depois
de algumas semanas de treinamento, entretanto, seus receios desapareceram por
completo. Essas mesmas pessoas passaram a escrever currículos com facilidade.
Identificavam oportunidades de emprego na Internet e candidatavam-se a emprego
via e-mail. Isso é realmente extraordinário.
Daí se conclui que, sem a infra-estrutura
correta, por melhor que seja a tecnologia, ela será de pouquíssima utilidade.
Energia elétrica, programas de educação e treinamento, desenvolvimento de
softwares e até mesmo microfinanciamentos são todos elementos essenciais que
devem estar ao alcance das pessoas para que elas possam colher os benefícios da
tecnologia.
E, por fim, será difícil alcançar os dois
objetivos que descrevi acima sem um firme comprometimento da parte dos governos
de torná-los prioritários. O governo não é a resposta para todos os problemas,
mas, quando se trata de acesso à tecnologia, ele é simplesmente o fator
determinante de maior importância em qualquer lugar do mundo.
4) Quais são os conjuntos de habilidades-chave
necessárias para as empresas da África de hoje e como as escolas de
administração de empresas africanas podem preparar melhor seus universitários
para um ambiente global de negócios?
Em geral, os líderes empresariais da África,
como os de muitos outros países, tendem a buscar soluções de curto prazo para
problemas de longo prazo. Eles se concentram em exportações brutas, em
materiais não-diferenciados ou no fornecimento de mão-de-obra barata. Todas
essas soluções oferecem ganhos no curto prazo, mas não se sustentam ao longo de
algumas décadas. As escolas de administração de empresas podem ajudar imensamente
incorporando a macroeconomia em seus programas. Programas de intercâmbio com
escolas do mundo todo também podem ajudar. A AMD acredita que a TI também pode
desempenhar um papel importante, porque ela é capaz de abrir portas para novas
oportunidades que antes eram inacessíveis às empresas africanas.
A outra metade dessa equação envolve a busca
de novas maneiras de atender às pessoas próximas da base da pirâmide. Isso vale
tanto para as empresas africanas como para empresas do mundo todo. Em seu livro,
A riqueza na base da pirâmide, C. K. Prahalad escreve:
"Se pararmos de pensar sobre os pobres como vítimas ou como um fardo e
começarmos a reconhecê-los como empreendedores criativos e persistentes e como
consumidores conscientes do valor das coisas, um mundo inteiramente novo de
oportunidades se abrirá". Essas são palavras sensatas e reveladoras,
representativas da inspiração da Iniciativa 50x15 da AMD, que
estabelecemos mais como uma estratégia comercial do que como um empenho
filantrópico.
5) Na cadeia de abastecimento global de hoje,
as empresas estão, cada vez mais, localizando suas instalações de produção em
países que oferecem vantagens no custo da mão-de-obra. O que é necessário para
tornar a força de trabalho da África mais competitiva diante das pressões da
concorrência da Ásia?
A resposta, na verdade, é a soma de tudo
aquilo que eu disse até agora. Mas isso pode ser útil para que se entendam os
fatores que são importantes para a AMD. Em primeiro lugar, localizamos nossas
instalações onde sabemos que existe uma força de trabalho preparada e
capacitada. Este é verdadeiramente o fator mais importante para nós. Um
funcionário habilitado é quase inestimável e a AMD faz todo o possível para
assegurar que os nossos funcionários disponham das ferramentas e dos recursos
necessários para permanecer à frente em um mundo competitivo, do ponto de vista
tanto pessoal como profissional.
A AMD também procura por comunidades que
valorizem a nossa presença e a nossa contribuição. Levamos esse papel muito a
sério e queremos ter certeza de que temos um lugar à mesa, conforme apropriado,
para auxiliar os políticos locais na tomada das decisões certas para os seus
cidadãos e para nós. Acreditamos que seja correto a AMD fazer parcerias com os
governos locais, para dar a seus cidadãos a possibilidade de terem vidas
ativas, produtivas e saudáveis. Isso é bom para nós e também para eles.
Aspectos como instalações educacionais adequadas são importantes. Da mesma
forma que a existência de infra-estruturas confiáveis. Hospitais, força
policial, integridade dos governos locais e nacional – todos esses fatores são
importantes para nós.
E, finalmente, buscamos lugares que sejam
amigáveis e atraentes para os negócios. Dito isso, quero acrescentar que esse
não é necessariamente um fator decisivo para nós. Mas é muito importante. Se
formos capazes de tirar vantagens de diversos incentivos que nos permitam
maximizar nosso fluxo de receita, mantidos os demais fatores em condições de
igualdade, todos ganharemos – nossos clientes, nossos acionistas, nossos
funcionários e a comunidade local em que estivermos integrados.