Painel 50x15 da PBS aborda questões e mitos socioeconômicos da tecnologia global
29/11/2005
AUSTIN, Texas (EUA) — A capacidade da Internet de transformar, de maneira revolucionária, a vida das pessoas é tão universalmente compreendida que o debate sobre a importância de conectar pessoas em mercados com alto índice de crescimento há muito tempo evoluiu para o debate sobre qual a melhor forma de fazê-lo. Esta fundamental mudança de mentalidade assumiu o centro das atenções em 24 de junho, quando a empresa afiliada de Austin da PBS, a KLRU, sediou a sexta e última etapa de sua Distinguished Speaker Series (Série Palestrante de Destaque) de 2005 denominada "50x15: Um compromisso global".
A discussão sobre a melhor forma de aproveitar a tecnologia para solucionar desafios socioeconômicos enfrentados pelas regiões em desenvolvimento do mundo enfocou, especificamente, três tópicos: soluções rurais x urbanas; celulares x PCs como fatores de formato ideal; e os prós e contras do aproveitamento de soluções ocidentais existentes em mercados com alto índice de crescimento. O painel também contou com o moderador David Kirkpatrick (editor-sênior de Internet e tecnologia da revista Fortune); A. Richard Newton (reitor da Faculdade de Engenharia da Universidade da Califórnia em Berkeley); Teresa Peters (diretora-executiva da Bridges.org); Theogene Rudasingwa (ex-chefe de missão do presidente de Ruanda e ex-embaixador de Ruanda para os Estados Unidos); e Hector Ruiz (presidente-executivo, presidente e CEO da AMD e arquiteto da Iniciativa 50x15 da empresa).
 A. Richard Newton |
 Teresa Peters |
 Theogene Rudasingwa |
 Hector Ruiz |
O pressuposto rural
Um dogma fundamental de muitas iniciativas atuais de inclusão digital é o compromisso com o fornecimento de soluções tecnológicas e acesso à Internet a pessoas que vivem em áreas rurais e remotas de mercados com alto índice de crescimento. Embora as organizações ocidentais quase sempre partam do pressuposto de que esta é a melhor forma de proceder, poucos minutos de debate bastaram para os membros do painel da KLRU rejeitarem tal noção.
No início da discussão, Teresa Peters — que recentemente mudou-se de volta para os EUA depois de morar na África do Sul — situou o debate de maneira que, provavelmente, surpreendeu muitos da platéia. "Eu não gosto de dinheiro sendo gasto em áreas rurais", ela disse. "Vamos retê-lo nas cidades." Peters, acompanhada por Theogene Rudasingwa, explicou que, com freqüência, as empresas e organizações ocidentais elaboram seus projetos de inclusão digital com base no pressuposto equivocado de que a maioria das áreas metropolitanas é mais auto-suficiente tecnologicamente do que suas congêneres rurais — simplesmente porque são cidades. "Existem mais pessoas pobres nas cidades", explicou Peters. "Pode-se reter o dinheiro nelas, onde é possível concentrar seus esforços e onde você enfrenta menos desafios externos. Depois pode-se transferi-lo para as áreas rurais. Este é um modelo melhor."
A mensagem dos membros do painel para as empresas, governo e líderes sociais dos EUA foi dupla: concentrem seus esforços de maneira direta em grandes áreas metropolitanas, onde vive a ampla maioria da população dos mercados com alto índice de crescimento e onde a popularização da conexão à Internet pode trazer mais benefícios; e aproveitem seu êxito obtido em áreas metropolitanas para estender os projetos de inclusão digital à população de áreas mais remotas.
Celulares x PCs
A discussão migrou para uma avaliação das soluções e fatores de formato mais promissores disponíveis para eliminar a exclusão digital global. Os membros do painel rapidamente resvalaram para um destes dois campos: os que eram a favor do celular como a melhor esperança para conectar à Internet os 85% restantes do mundo, e os que acreditavam que concentrar-se em um único dispositivo é algo muito limitador. O debate está sobressaindo com vantagem no mundo mais amplo da inclusão digital, em que algumas áreas, por necessidade, exigirão uma abordagem sem fio devido à falta tanto de infra-estrutura de linhas terrestres quanto de eletricidade confiável.
A divergência de opiniões foi realçada acentuadamente a meio caminho da discussão quando A. Richard Newton pediu a seus colegas de painel e ao público para escolherem ou um celular ou um PC se pudessem usar apenas um dispositivo pelo resto da vida. "Para mim, a resposta nem sequer exige reflexão", disse Newton. "Sem sombra de dúvida, o celular representa a mais importante era da tecnologia. A Internet é um conector de pessoas. É onde reside o valor de um celular."
Embora todos os membros do painel tenham concordado que o celular é um componente importante de qualquer iniciativa de inclusão digital, o presidente e CEO da AMD, Hector Ruiz, por fim unificou-os em torno da idéia de que o tipo de plataforma é menos importante que a capacidade de conectar pessoas à Internet e de, por meio desta, conectá-las entre si. Ruiz sugeriu que um modelo de sistema que aproveite diversos dispositivos representa a melhor abordagem, como um todo, para eliminar a exclusão digital global.
"O que não podemos esquecer é que, em lugares como a Jamaica, não é preciso ter celulares, porque já existem cabos de cobre instalados", disse Ruiz. "Na África ocorre o contrário. Eles não têm nada em termos de linhas terrestres, e o modo mais fácil de conectá-los seria por meio do celular. Aprendemos a não tentar vender às pessoas algo de que não precisam. Nosso foco é proporcionar-lhes uma solução que seja a mais adequada às suas necessidades. A genuína vantagem é a conexão."
Soluções sob medida x já existentes
Apesar das propensões individuais por soluções específicas, todos os cinco membros do painel concordaram que impor à força produtos ocidentais existentes a diversos mercados globais traz alguns riscos.
Ruiz descreveu uma situação recente que se tornou mais que comum: "Em um dos países em que estamos trabalhando a 50x15, o governo foi convencido de que as escolas do nível básico precisavam de computadores capazes de reproduzir vídeos dinâmicos. De onde será que tiraram essa idéia? Bem, foi porque algum bem-intencionado vendedor de uma fábrica de computadores ocidental pensou… isso trará melhores margens de lucro. Deste jeito, não vai funcionar."
No decorrer do debate, a paixão dos membros do painel por agir corretamente — mesmo quando em alguns momentos discordavam precisamente quanto ao que era o correto — ressaltou a realidade da situação que as organizações enfrentam em sua batalha para conectar o mundo à Internet. Cada país e região requerem uma abordagem exclusiva e sob medida que proporcione às pessoas as ferramentas tecnológicas de que necessitam para fazer face aos desafios por si mesmas.
Como observou o membro do painel Theogene Rudaswinga, "O problema de solucionar a pobreza na África não pode vir das obras de caridade. É preciso ser um processo totalmente autoconduzido de pessoas enfrentando seus próprios problemas e solucionando-os. E a tecnologia é uma poderosa ferramenta nessa jornada."